DEPOIMENTO: MINHAS PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS COM A PALAVRA ESCRITA
Um dos irmãos mais novos do meu pai foi a pessoa responsável pela minha introdução no mundo das letras. Tio Mário, tinha a saúde frágil, faleceu cedo, aos 32 anos, mas conseguiu alfabetizar vários sobrinhos. Passávamos horas no quintal da casa da minha avó paterna, com o meu tio e a sua lousa mágica aprendendo vogais, consoantes, a junção das letras, formação das palavras, ele nos levou aos primeiros contatos com esse objeto do conhecimento, saudades tio... valeu pela paciência! Entrei na escola aos seis anos, direto na primeira série, não encontrei dificuldades com a leitura e escrita, esse processo de alfabetização anterior à escola foi fundamental. Sem esquecer-me das inumeráveis estórias de lobisomem, saci pererê, mula sem cabeça, etc., contadas pela minha avó paterna, como se fossem histórias reais, vivências do período em que moravam na zona rural. Apesar do medo (ela usava as palavras com um conhecimento de causa tão grande dessas lendas e contos que prendia demais a atenção), ficávamos paralisados ouvindo. Para nós o que ela relatava eram verdades e não lendas, estórias de assombração, contadas por uma pessoa tão próxima, quantas vezes a fantasia misturou-se com a realidade. Amava aquelas horas dos contos de suspense, sempre com um gostinho de quero mais. Aliás, como as pessoas idosas adoram contar fatos passados, desejam alguns minutos de atenção, quanta sabedoria.
E, a partir do momento que entrei na escola e adquiri o domínio pleno da leitura e escrita, não larguei mais os gibis, principalmente as fotonovelas, benditas fotonovelas, que eu sempre emprestava das minhas primas mais velhas, quantas eu li? Não dá nem para contar, foram muitas. Após esse processo teve ainda a influência do meu avô paterno, durante aproximadamente três anos, antes do seu falecimento, eu lia a bíblia para ele e uma senhorinha amiga de religião. Eles adoravam me ver lendo, elogiavam o tempo inteiro a forma como eu lia, a segurança que eu tinha com as palavras. Todas as tardes era rotina, e para mim era o máximo, sentia-me realizada. Na época tinha entre nove e doze anos, e para uma criança sentir-se valorizada, é algo que não tem preço. Não sei se eles, com gestos tão singelos, conseguiram perceber a dimensão dos valores que transmitiram para a minha vida.
Ler é produzir sentido. E, as pessoas que fizeram parte do meu início de alfabetização, levaram-me a compreender os significados da palavra escrita e falada, aqueles momentos, estavam dentro da realidade que eu vivia, foi um processo que fazia sentido: ler, escrever, ouvir e falar. Tão importantes quanto a cartilha, os momentos de exercícios de coordenação motora (exemplo: ondinha vai, ondinha vem, para fixar a letra C). As palavras certas para descrever melhor esses momentos, difícil encontrá-las, restam então as lágrimas, as emoções das recordações. Essas pessoas, as experiências de vida que elas conseguiram me proporcionar, serão eternas na minha memória.
Ivany Gonçalves do Carmo Bueno
A gente nunca esquece as pessoas que de uma forma ou de outra participaram de nossa alfabetização. Eu particularmente fui alfabetizada pela minha avó que era professora aposentada. Iniciei minhas primeiras letrinhas no pré e me lembro como se fosse hoje. Eu adora estudar. Aquele uniforme e aquela escola que saudade.
ResponderExcluirTudo era mágico. Concordo com você Ivani . Quanta emoção.
PERCEBA QUE A VIDA É UMA ESCOLA E QUE VOCÊ ESTA AQUI PARA APRENDER, PASSAR POR TODOS OS TESTES. PROBLEMAS SÃO APENAS PARTE DO CURRÍCULO, APARECEM E DESAPARECEM COMO AULAS DE ÁLGEBRA, MAS AS LIÇÕES QUE VOCÊ APRENDE IRÃO DURAR UMA VIDA INTEIRA.
ResponderExcluirJOSE ANTONIO